Galiza, 1905 de Fialho de Almeida.
O Independente. Lisboa, 2001, 314 págs. B.
Tudo isto entra em mim de tal modo que eu velho de 50 anos, com barbas brancas, não tenho outro meio de mostrar o meu agrado senão desatando a gritar «Viva a Galiza!», enquanto as lágrimas me caem pelas barbas e toda a gente ri, dizendo: «Está loco o portugues!».
Oh que estrada de rampas deliciosas, encostadas às montanhas, subindo agora sem cessar, não avançando nunca, subindo, voltando, e que parece feita, não por um engenheiro, mas por um grande poeta paisagista! E os olhos para trás descobrem paraisos verdes, perspectivas de inferno, braços de castanheiros que já de longe têm o ar de nos deitar a sua bênção, e de, nesta terra boa, de gente hospitaleira, nos desejar boa viagem.
Em todas as estradas da Galiza há, marcada em postes sucessivos, não só a contagem quilométrica, senão, nas bifurcações, o destino das estradas, aonde levam, por que povos passam […] Ninguém arranca esses benéficos avisos, que ficam bajo la guardia del pueblo, como os jardins públicos, e o mais. Que lição para a estúpida e mal intencionada gentalha portuguesa, que tudo estraga!
Um barco de vela a todo o pano é uma admirável e elegantíssima criação da fantasia utilitária. Só pela beleza das linhas vale todos os couraçados do mundo, que como os automóveis nunca perderão o tipo antipático que têm de ferros de engomar.
Num oratório envidraçado (curiosidade) vi um Menino Jesus, nu, em atitude de meditar, horrível como estátua, e tendo um dos pés sobre uma caveira humana. Tão pequeno e tão brejeiro, e já Hamlet!
✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.