Gente de Palmo e Meio de Augusto Gil. Portugália Editora. 1965. 141 págs. B.
Maria, poisando as mãos esguias na balaustrada de granito, ficou a olhar absorta as águas múrmuras do mar.
…E eu, homem de som e de ritmo, a quem a materialidade raramente enleva, contemplava maravilhado o talhe «primitivo» das suas mãos, duma brancura de magnólia aberta, e todas enredadas de veiazinhas azuis.
E eu que, por uma estrofe sem mácula, daria de bom grado todos os sagrados mármores da Hélada, senti nesse instante quanto de milagroso haveria em domar a bruteza dum «bloco» de Paros até que o cinzel afeiçoasse nele a infinita candura daquelas mãozinhas débeis…
📖 Exemplar por abrir 👨🏻🎨 Ilustrações de João da Câmara Leme
E eu que, por uma estrofe sem mácula, daria de bom grado todos os sagrados mármores da Hélada, senti nesse instante quanto de milagroso haveria em domar a bruteza dum «bloco» de Paros até que o cinzel afeiçoasse nele a infinita candura daquelas mãozinhas débeis…
Edição de apurado cuidado gráfico, cuidadosamente impressa a negro e vermelho sobre encorpado papel de escolhida qualidade. “Poeta de estro fácil, nele se conjugam o realismo junqueiriano, o idealismo cristão, o panteísmo tocado de saudosismo, à Pascoaes, do qual o separavam a intuição filosófica: importa, todavia, não esquecer que a sua vastíssima bibliografia inclui também…
Páscoa Feliz de José Rodrigues Miguéis. Alfa. 1932, 166 págs. B.
Editada em 1932, esta é a obra de estreia de José Rodrigues Miguéis e, talvez, uma das suas criações mais pesadas, onde a alienação e a loucura do indivíduo ganham uma expressão que não se encontra noutros trabalhos do autor. Vítima de opressão social, humilhado e derrotado pela vida, o protagonista da história decide dedicar-se ao crime, roubando compulsivamente o patrão. Desligado do mundo e até da sua família, talvez porque ele próprio também cresceu órfão, acaba por cometer um assassinato quando os seus crimes são descobertos. A novela inicia-se já com o seu julgamento e revela toda a sua paranóia e esquizofrenia.
O Homem Duplicado de José Saramago. Editorial Caminho. Lisboa, 2002, 318 págs. B.
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim». Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo».
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exatamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem.
📕 1ª Edição. ✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.
“(…) Os Três Seios de Novelia são, pela nitidez do sabor local e epocal, o romance de um jovem à descoberta do seu mundo lisboeta de 1968 — numa espécie de contrapartida a A Engomadeira de Almada Negreiros, meio século depois. Mas, tal como com Almada, a arrumação cronológica, topográfica, e imediatamente verosímil do ambiente…
Apenas Homens de Vergílio Ferreira. Editorial Inova. Porto, 1972, 97 págs. B.
“Apenas homens é ‘uma coletânea de coisas de várias épocas, dispersas por jornais e revistas, com raros contos inéditos, e reunidos a pedido do editor para esta coleção. O seu interesse é, pois, muito variado. Há coisas aceitáveis (‘A estrela’, ‘Há galinha’, por exemplo) e outras que se incluíram, apenas por estarem irremediavelmente publicadas. Daí o não ter incluído este livro nas ‘Obras do autor’. [Transcrição de parte da dedicatória do Autor ao ensaísta João Décio, datada de agosto de 1974, Praia das Maçãs]. (…) Embora tais narrativas tenham sido reunidas quase que aleatoriamente para atender a interesses que não os propriamente literários, foi possível, através da sua análise, determinar uma temática convergente. Dentre outros, afloram dois aspetos de suma importância, o ético e o estético. Entretanto, por razões que no momento não importa referir, optamos pelo primeiro, aliás, predominante nas narrativas de Apenas Homens.”
Azul Deserto da Tarde de Eunice Cabral. Publicações Europa-América. Mem Martins, 1987, 127 págs. Mole.
Estamos suspensos na imprecisão do espaço. As personagens, definidas por marcas de uma insólita ausência, são um convite para que cada leitor se constitua em companheiro de uma viagem estranha. A «tarde» do título é já noite no início do livro, indício da narração em flash-back de um crime – não se sabe qual, nem por que personagens é protagonizado. O azul surge como definitivamente passado com o suicídio de Jaime, a quem encantava o final da tarde. O deserto presente é povoado por imagens do passado, presas no vídeo. O cartaz de Paris, Texas, que Vera retira da parede do quarto de Jaime, já morto, denuncia o carácter migratório do discurso, percurso de estradas, passagem por lugares impessoais. Presos, desde o primeiro momento por ingredientes de suspense, agarrados pela precipitação das frases, somos facilmente seduzidos pela fluência do discurso, apressado, ágil. Uma obra que prende o leitor até à última página.
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Amor Feliz de David Mourão-Ferreira. Editorial Presença. Lisboa, 1985, 299 págs. B.
…a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória; a memória dentro da invenção; e toda essa cavalgada de uma grande fuga, todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam, as que se esquivam; as que é preciso perseguir, seduzir, ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as hoas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem mais disposta a por amor ser fecundada
Uma Mão Cheia de Nada Outra Coisa Nenhuma de Irene Lisboa. Figueirinhas. Porto, 1980, 155. B.
«Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma» insere-se na reedição, levada a cabo pela Editorial Presença, das «Obras de Irene Lisboa», de que estão neste momento disponíveis dez volumes; o outro volume para crianças e jovens «Queres Ouvir? Eu Conto» (1993) está também disponível na colecção «À descoberta». O prefácio pretende traçar sumariamente as principais linhas temáticas e condutoras desenvolvidas nestas histórias, quer articulando-as com os restantes livros de Irene Lisboa, quer apontando os seus processos literários, originais ou herdados de um imaginário tradicional. Com o seu lugar próprio nas «Obras de Irene Lisboa», este livro é mais um elo na cadeia de reactivação do nome desta autora, assim posta mais perto de leitores maiores e mais pequenos.
Bichinho de Conta de Rocha Martins.
Editorial Inquerito. Lisboa, 1942, 274 págs. B.
Francisco José da Rocha Martins (Lisboa, 1879 — Sintra, 1952), mais conhecido por Rocha Martins, foi um jornalista, historiador e activista político, um dos mais prolíficos escritores da primeira metade do século XX, publicando uma vasta obra de divulgação histórica. Foi também autor de um notável conjunto de biografias e ainda de algumas novelas e romances históricos. Jornalista profissional, trabalhou em diversos jornais de Lisboa.
Guia Histórico do Viajante em Coimbra e Arredores de Augusto Mendes Simões de Castro. Imprensa da Universidade. Coimbra, 1867, 254 págs. E
Encadernação cansada e com uma falhas como é possível ver nas fotografias. Pequenos sublinhados a lápis. Encadernação com lombada em pele com gravada ferros a ouro. Ilustrado em separado com 5 gravuras. Primeira edição.
Curioso e raro guia turístico da região de Coimbra, ilustrado com 5 estampas à parte. Descreve Condeixa, Lorvão, Mealhada, Luso, Bussaco, Montemor-o-Velho e Figueira.
URSS: Mal Amada, Bem Amada de Fernando Namora. Bertrand Editora. Amadora, 1986, 161 págs. B.
Neste livro, mais uma vez viandante sem véus preconcebidos, sempre indaga dor, mesmo através do imaginário, a União Soviética abre-lhe horizontes de descoberta que se desdobram nas mais várias direcções. Novos e quantas vezes, decerto, inesperados horizontes. Namora encara-os de frente, com largueza identi ficante ou contrastante, não só em panorâmicas observadas mas em personagens e situações efectivamente vividas ou rea listicamente imaginadas, numa origina lidade de construção «em sábia mistura de crónica e romance» que já Eduardo Lourenço justamente acentuou em comentário a Diálogo em Setembro.
Mesopotâmia de António Rebordão Navarro. DIFEL. Lisboa, 1985, 189 págs. B.
Mudava de vestido (mudar de vestido era um cerimonial delicado de divisão do dia), espalhava o pó-de-arroz na cara, passava nos lábios finos um pouco de bâton, retirava do queixo com a pinça um pêlo enraivecido, com a pinça depilava as sobrancelhas, com o vaporizador derramava perfume sob as orelhas e pelo pescoço, enfiava escravas no pulso esquerdo, colocava e retirava, hesitante. os anéis no anular e no mínimo de uma das mãos e um só, muito discreto ou muito valioso no mindinho da outra. E acertava com as pontas dos dedos o vestido de seda tinha de o mandar brunir, estava castigado da viagem na mala-face ao espelho do imponente, mastodôntico guarda-fato. Reconhecia ainda na imagem devolvida um corpo que sessenta anos não tinham degradado. E a consciência disso era-lhe naturalmente. Era, como o vago aroma da essência que se espalhara peto quarto. Ainda no Inverno anterior descendo a Rua de Santo António, um homem perseguira o seu rastro. E ela, para não quebrar o sortilégio, erguera até ao colossal nariz a gola forrada a astraca do seu casaco comprido. Às vezes, receosa de perigar em imaginação, parava em frente de vitrinas idiotas destituídas para uma senhora de qualquer interesse, máquinas de escrever, artigos desportivos, peças para automóveis, ou, com mais audácia, voltava a cabeça, constatando com gáudio tão adolescente como- pecaminoso que o cavalheiro persistentemente pautava os seus passos pelos dela.
Histórias do Anoitecer de Joaquim Pacheco Neves. Tipografia A Portuense. Porto, 1966, 269 págs. B.
Livro de contos de Joaquim Pacheco Neves (Vila do Conde, 11 de junho de 1910 – 19 de janeiro de 1998). Médico, cronista, romancista, dramaturgo, memorialista e editor português, autor de uma vasta obra galardoada com vários prémios nacionais
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O que será a poesia senão o discurso interior do pensamento que busca, permanentemente, o roteiro do essencial, sem medo do sentimento, da polémica, da irreversibilidade de tornar cúmplice quem a ouve e sobre ela reflecte?!
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