Prosa de Álvaro de Campos. Edições Ática. Lisboa, 2012, 416 págs. B.
Álvaro de Campos, a personagem mais activa, interventiva e penetrante criada por Fernando Pessoa, foi a única que deixou uma prosa (até 2012 amplamente inédita) de uma dimensão idêntica à que se encontra no «Livro do Desassocego» (publicado em 1982). Daí que a publicação da «Prosa de Álvaro de Campos» se possa considerar um acontecimento editorial tão relevante quanto a primeira publicação do «Livro do Desassocego» há exactamente trinta anos. Afinal, a prosa tardia de Campos é contemporânea da prosa tardia do Livro e ambas foram escritas pelo mesmo autor quando este havia já atingido um raro domínio da sua arte. Para mais, foi o próprio Pessoa quem afirmou que o seu semiheterónimo Bernardo Soares se assemelhava em «muitas coisas» ao seu heterónimo Álvaro de Campos. Neste sentido, a presente edição da prosa reunida de Campos vem lembrar, mais uma vez, que Pessoa continua inédito, embora seja esta uma realidade que ainda hoje nos espanta, quer por não a imaginarmos possível, quer por a desconhecermos por completo.
O Corvo de Edgar Allan Poe.
Relógio d’Água. Lisboa, 2009, 72 págs. B. Il.
«O Corvo» de Edgar Allan Poe (1809-1849) foi publicado pela primeira vez em livro em 1845, pela editora norte-americana Lorimer Graham, numa versão que integrava correcções do autor. Poucos anos depois era já um dos mais conhecidos poemas da literatura norte-americana, sendo considerado um desafio por diversos tradutores, entre os quais se contaram Charles Baudelaire e, no caso da língua portuguesa, Fernando Pessoa e Machado de Assis.
Um dos problemas específicos do texto está no facto de o corvo, que certa noite visita o narrador mergulhado em livros de um «saber esquecido», emitir apenas a palavra Nevermore, que é enunciada no final de cada estrofe adquirindo de cada vez um sentido diverso.
✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados. 👨🏻🎨 Traduções de Fernando Pessoa e Machado de Assis.
O Anjo do Desespero de Heiner Muller.
Relógio d’Água. Lisboa, 1997, 88 págs. B.
«Os textos de Heiner Müller vibram de uma energia verbal em que a força obscura da palavra resulta de uma extrema lucidez: a estranheza (para quem lhe não conhece as fontes inesgotáveis) é o seu princípio, a metáfora o seu instrumento poético-político. Neste plano, Heiner Müller é afinal ¿antigo¿, produzindo, paradoxalmente, o que há de mais novo no teatro alemão: deixando que se manifeste a crueldade, o lado bárbaro e necessário, violento e autêntico das relações humanas na História (procurando retirar-lhe o filtro da racionalidade moderna e evitando toda a psicologia), tem de fazer corresponder a esses novos textos da crueldade um novo estilo, em que cada frase é como ¿a resistência de um amplificador, para o cérebro arrancar a frio¿ (Klaus Theweleit), a linguagem um material em devir, ¿um eterno gerúndio¿ (Helmut Krapp). Cada texto uma paciente caligrafia da morte, destruindo ilusões, trazendo à superfície o que se quer que seja, em cada momento, ¿a verdade, silenciosa e insuportável¿: é o programa ideal que Heiner Müller descobre entre os papéis da segunda mulher, Inge Müller, que se suicidou em 1966.»
Do Posfácio
Antologia Poética de Carl Sandburg.
Edições Tempo. Lisboa, s.d., 38 págs. B.
Selecção e tradução de Alexandre O’Neill.
Carl Sandburg (1878–1967) foi um poeta, escritor e biógrafo norte-americano, conhecido por exaltar o povo comum e a vida urbana nos EUA. Nascido em Illinois, trabalhou em várias áreas antes de se tornar jornalista e poeta em Chicago. Influenciado por Walt Whitman, destacou-se com obras como Chicago Poems (1916) e Cornhuskers (1918). Ganhou três Prémios Pulitzer, incluindo pela biografia em quatro volumes Abraham Lincoln: The War Years (1939). Também escreveu contos infantis e recolheu canções populares. Sandburg tornou-se uma das figuras mais respeitadas da literatura americana do século XX
Tesouros da Poesia Portuguesa de António Manuel Couto Viana [Org.]
Editorial Verbo. Lisboa, 1983, 393 págs. E. Il. 👨🏻🎨Ilustrações de Lima de Freitas
Portugal, país de poetas! Ei-la, a verdade provada, nestas pági- nas de oiro. Lê-las, é escutar a voz fremente de tudo o que sentimos e calamos; é conhecer os segredos das coisas e das almas; é venerar o passado, entender o presente, desejar o futuro.
Erro Próprio de António Maria Lisboa. Guimarães Editores. Lisboa, 1962, 87 págs. B.
Na obra de António Maria Lisboa (como na literatura surrealista de um modo geral) a distinção entre poemas e manifestos revela-se artificial, dado o recurso em ambos os discursos a uma linguagem de tipo metafórico, metaforismo que, para Fernando J. B. Martinho (op. cit., 1996, p. 62), “não é senão a face visível da impossibilidade, numa prática literária como a de António Maria Lisboa, de restringir o pensamento, o inteligível aos manifestos e o sensível aos poemas”, sendo que tanto a reflexão poética e filosófica podem estar presentes no poema, como o texto argumentativo pode evoluir, sem transição, para o registo poético. Considerado um dos principais manifestos do surrealismo, e situado no ponto de chegada de várias polémicas e ataques entre os grupos surrealistas, o Erro Próprio de que nos fala António Maria Lisboa é o erro surrealista, o equívoco sobre o que deve ser o surrealismo, sobre o caminho que o surrealismo deveria ter tomado. Ora, para António Maria Lisboa, o erro não reside em ter enveredado por uma ou outra perspetiva, mas em os surrealistas não terem visto que “qualquer que seja a conduta humana não é falsa nem verdadeira”, e que a essência mesma do surrealismo é a sua absoluta liberdade: “posto a funcionar, [depressa] se criaram as diversas cores Surrealistas (sem no entanto negar os seus princípios… claro!) e de tal forma, e tanto mais feroz, que o Movimento ou passa a ser a cauda dum Pontífice Inadmissível ou cai na ofensa e na querela inútil do EU SOU tu não és, a não ser que outro caminho se tenha adivinhado. E de facto assim foi: LIVRE, nem mesmo um agrupamento de indivíduos Livres pode estar ligado Umbilicalmente. […] o Compromisso do Poeta é com o AMOR e o ato um ato LIVRE no TEMPO-ÚNICO!” (p. 37).
Che de Manuel Alegre.
Editorial Caminho. Lisboa, 1997, 42 págs. B. Il.
Poema de Che. Talvez um dia ele volte o general dos pobres / talvez um dia ele volte a Ñancahuazú / pouco importa se bem ou mal escolhido mas um lugar do espírito / outro lado da alma e a busca de um sentido / rumor de escrita / à luz de uma fogueira onde cintilam armas / […]
Viagem à Minha Infãncia de Silva Tavares.
Ed. Autor. Lisboa, 1950, 96 págs. B. Il.
“Este é o livro feito há muito mas que nunca fora escrito. É o menino esquecido que o menino lembrou ao homem e que o se apressou a coligir, procurando-se noutra cidade. Poesia? Sem dúvida… mas nada de ficção. Nem, talvez, nada de novo… Só a Vida. Querer ser original é não saber que tudo se repete, por outras palavras… A hora exacta não se procura — procura-nos. E a originalidade nunca foi nem será — como alguns pretendem insinuar — a arte de tornar confuso o que é simples por natureza. As ideias, de igual modo que as pessoas, podem ofender o pudor apresentando-se nuas.”
Praça da Canção de Manuel Alegre. Centelha Editora. Coimbra, 1975, 155 págs. B.
Sem grande margem para dúvidas, pode dizer-se que este livro marcou para sempre toda uma geração de jovens portugueses que ao longo dos anos 60 se empenharam na contestação estudantil nas Universidades e lutaram contra a guerra nas ex-colónias africanas.
Aparecido em Coimbra e incluindo muitos poemas que rapidamente se divulgaram graças às canções de Manuel Freire, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira ou Luís Cília (entre outros), “Praça da Canção” recorre à História de Portugal para através desse passado colectivo interrogar o presente e o futuro do país, conseguindo aliar um poderoso sopro épico e um lamento pela condição dos portugueses no tempo em que foi escrito.
Sublinhe-se ainda a capacidade de aproveitar os recursos da métrica e da rima para a criação de uma musicalidade sensível, por exemplo, na famosa “Trova do Vento que Passa”, e contribuindo para fazer de Manuel Alegre o trovador da sua geração.
Canto e as Armas de Manuel Alegre. Centelha Editora. Coimbra, 1974, 139 págs. B.
“Não me levem a mal se, apoiado num livro que pode considerar-se de estrela, me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português.’ Assim escreveu Mário Sacramento a propósito da Praça da Canção publicada em 1965. Posteriormente, com O canto e as Armas, Manuel Alegre prosseguiu o caminho duma poesia de combate, cantada e lida pelos que resistiam, proscrita e proibida pelo poder. Aqui se apresenta a 4ª edição deste livro, agora finalmente livre, para chegar a todos aqueles para que foi escrito”.
📕 3ª Edição. ✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.
Klee de Paulo Tunhas. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Lisboa, 1985, 62 págs. Mole.
Paulo Jorge Delgado Pereira Tunhas (1960-2023) foi professor e investigador de Filosofia na Universidade do Porto, onde também se licenciou. Doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, desenvolveu uma abordagem original à filosofia como ideia e sistema, explorando o pensamento, a existência e a ação. Publicou obras de filosofia, organizou volumes coletivos e colaborou em projetos de Fernando Gil. Estudou autores clássicos e contemporâneos, publicou ensaios políticos e culturais, poesia, ficção e um libreto de ópera. Deixou inacabado um projeto sobre a “poética da filosofia”.
Para Viver Um Grande Amor de Vinicius de Moraes. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1973, 197 págs. B.
Este livro é metade em prosa, metade em versos – mas sempre de poesia. Vinicius de Moraes explica na “Advertência”, falando de suas crônicas, que “há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a de um grande amor”.
Explica ainda que “os poemas visam a amenizar um pouco a prosa: dar-lhe, quem sabe, um “balanço” novo”. O poeta conseguiu exatamente isto, e daí a graça especial destas páginas cheias de carinho e de lirismo sensual.
Um livro para os que amam, escrito com o sentimento humano de quem sabe fazer da vida uma grande aventura de amor.
📕 8ª Edição.
✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.
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