Poemas de Nicola Vaptsarov. Limiar. Porto, 1980, 66 págs. B.
Ele deixou-nos dois ensinamentos: a sua própria poesia, escrita com «palavras simples», da qual foram extraídas definitivamente as raízes da poesia abstracta e do formalismo da Europa e ainda o mandamento incluído na poesia «História», que sempre viverá no futuro. Neles está representado o perfil moral das gerações vindouras, o seu destino, o destino dos elementos que, como a natureza, criam o mundo e a civilização. Graças a este poeta os italianos interessaram-se pela literatura búlgara, ainda pouco conhecida e por aprenderem de Vaptsarov sobre a vida social do homem, tal como foi, como é e como não será. No entanto é preciso salientar o dramatismo de Vaptsarov nas sua obras épicas. A sua experiência como escritor confirma-se através de relações constantes com a língua viva, à qual aspiram todos os poetas do mundo. Não esqueçamos também o homem Vaptsarov, a sua força moral, o seu heroismo espontâneo e a abnegação, com os quais serviu o seu povo. E desiludamos aqueles que acreditam na morte, em nome daquela morte que é “lógica” para o poeta.
Os quatro poetas que hoje trazemos a um público de língua diversa, momentos da evolução, de que falámos, pertencem a uma época que nos é mais próxima, são marcos dessa luta permanente pela sobrevivência e pela dignidade iniciada há séculos, desde os tempos longinquos em que o território era apenas povoado pelos Trácios, esse povo de Orfeu que trabalhava o ouro e cuja cultura altamente desenvolvida precedeu a cultura helénica, num território destinado a ser atraves-sado por guerreiros das mais diversas nacionalidades, devastado pelo fogo e o sangue das ambições, das conquistas, do heroísmo e do desespéro; quatro homens, quatro poetas, quatro símbolos, pois que toda a história da Búlgaria se funda na fusão maravilhosa de duas componentes constantemente aliadas: o heroísmo e a cultura.
Matéria Solar de Eugénio de Andrade. Limiar. Lisboa, 1980, 62 págs. B.
«Discreto arredio dos palcos sociais, mas humanamente fiel e afim ao devir da natureza, mãe de efémeras metamorfoses; sem transcendências, dogmas ou mitos moralizadores, Eugénio de Andrade é um exemplo excepcional, “clássico” portanto, da melhor figura do criador — e esta obra, em pequeno livro, é disso uma muito feliz demonstração.»
📕 1ª Edição. ✅ Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.
Memória Doutro Rio de Eugénio de Andrade. Limiar. Porto, 1978, 66 págs. B.
Memória Doutro Rio
Um dia, numa língua de areia, avistei dois corpos que se penetravam exasperados. Fiquei aterrado: primeiro pensei que ele a estava a matar, a seguir, que ambos estivessem a morrer, só depois percebi o que se passava, e o meu próprio corpo se exasperou. Quando acabaram, a mulher chorava e o homem quase lhe mijava em cima. Afastaram-se cada um para seu lado, sem trocarem palavra.
Contei o que vira a um pastor que encontrei mais abaixo. Pouco mais velho era do que eu, mas mostrou-me como o prazer não tem forçosamente que ver com a culpa. Quem não sabe que os corpos também podem ser conjunção de águas felizes?
Vertentes do Olhar
Composto por poemas em prosa, «Vertentes do Olhar» é composto por poemas que abarcam mais de quarenta anos de produção poética do autor. «Entre o mais antigo poema deste livro (“Fábula”, 1946) e o mais recente (“A Sereia do Báltico”, 1988) passaram mais de quarenta anos. É uma vida à procura de uma voz. A melodia do homem nasce dessa busca incessante: descobre-se quando nos descobrimos. Não foi fácil: desaprender custa mais do que aprender. Estarei agora, ao menos, mais perto desse dizer que ajude outros a falar?».
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