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  • 1983 de João Pedro Vale

    1983

    João Pedro Vale

    10,00 

    1983 de João Pedro Vale
    Editora Documenta. Lisboa, 2023, 332 págs. B. Il.

    1983 é título de uma instalação e performance evocando uma cena de rua, em noite chuvosa, numa zona de Lisboa por vezes chamada marginal no que a sexo diz respeito. Uma paragem de autocarro, dois homens sentados.

    1983 é também o ano das primeiras notícias sobre SIDA em Portugal. Uma crise global revelou então – como hoje a emergência climática, a COVID ou o terrorismo de Putin – a eminente vulnerabilidade da vida e liberdade humanas.

    A SIDA revelou também a homofobia estrutural que atrasou de modo criminoso as decisões políticas necessárias para a enfrentar e desencadeou uma vaga de militâncias que hoje, quarenta anos depois, manifestam evoluções significativas nas lutas anti-racistas, feministas e contra o totalitarismo heteronormativo, constituindo decisiva parte integrante da luta contra as novas vagas com vocação neofascista (de Trump a Bolsonaro).

    Em Portugal, por razões históricas que se podem considerar evidentes (o longo período de ditadura política e a hegemonia das versões mais conservadoras da religião católica), não há uma linhagem explícita de «arte gay» (nem mesmo nos anos 60) e muito menos uma presença significativa das temáticas e debates queer na área das artes plásticas.

    O trabalho de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, além da relevância no campo específico da escultura/instalação e dos «filmes de artista» – nomeadamente variações queer, ou camp, a partir de Moby Dick e Werther -, tem uma relevância política e ideológica que em Portugal podemos considerar excepcional.

    Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.

  • Lagoa Henriques: Eu e Minha Casa

    Lagoa Henriques: Eu e Minha Casa

    Maria João Gamito

    15,00 

    Lagoa Henriques: Eu e Minha Casa de Maria João Gamito.
    Documenta. Ramada, 2016, 670 págs. B. Il.

    “Lagoa Henriques: Eu e a Minha Casa” é o livro que Lagoa Henriques [Lisboa, 1923-2009] não pôde acabar de escrever e se conclui agora, no compromisso entre a memória das lições de um pedagogo inesquecível e o encontro paciente com os seus programas de televisão, com a visitação da sua obra artística, com os registos do acontecer da escultura e do desenho nos segredos metamórficos do seu atelier, com as muitas palavras que disseminou por diários gráficos, cartões de convite, papéis avulso, conferências, conversas e entrevistas, em todos eles celebrando o mistério das pequenas dádivas de um quotidiano onde a morte tranquilamente se anuncia. Mas também com os sedutores enigmas da sua casa interminável e o sonho, brevemente concretizado e logo interrompido, de uma casa-museu com o seu nome.
    É por isso que este livro, fundamentalmente escrito na primeira pessoa, se poderá ler como a última lição de Lagoa Henriques, livre das revisões bibliográficas e da erudição dos comentários que disciplinam a originalidade, inscrevendo-a em longas cadeias de comparadas filiações. Lição ainda, por ser, como todas as outras de Lagoa Henriques, tão inseparável de si que não seria possível abreviá-la fora dos textos e das imagens – fora da relação palavra/imagem, como ele tantas vezes a designou – que partilham o argumento único de uma vida e de uma obra na singularidade do espaço que as torna indiscerníveis.
    Desaparecidos o homem e a sua casa, o livro é o modo possível de os trazer de novo à presença dos seus amigos e dos seus contemporâneos, como ele interlocutores da época histórica em que viveu, alguns deles testemunhas privilegiadas do convívio despretensioso e apaixonado com tudo o que se lhe oferecia aos sentidos e à curiosidade insaciável da sua cultura humanista, vivida e ensinada com a liberdade dos homens livres que, com as suas qualidades e os seus defeitos, são tão inteiros em tudo o que fazem que se podem dispensar a vaidade de se levarem a sério.

    Livro sem marcas, assinaturas ou sublinhados.