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Pasmo Geral: “Um Mundo Incrédulo”

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Santa MariaO eclipse do Santa Maria lançou um compreensível alarme no sistema português de segurança. Formou-se um gabinete de emergência integrando os almirantes da Marinha, e coube a Pedro Theotónio Pereira accionar as primeiras medidas. Salazar estava convalescente, como Elbrick informara, em 13 de Janeiro: “Salazar está a recuperar de um ligeiro caso de pneumonia”. Adriano Moreira diz que na reunião foram avaliadas todas as hipóteses, sendo a mais preocupante a de o Santa Maria aproximar-se da costa de Angola. De imediato, pelos canais diplomáticos, o Governo pediu aos Estados Unidos e à Inglaterra que usassem os seus navios no mar das Caraíbas para detectarem o Santa Maria e apreendê-lo. Washington e Londres responderam com solicitude: o Pentágono enviou dois torpedeiros e o Almirantado inglês despachou uma fragata. O embaixador de Portugal em Washington, Esteves Fernandes, foi recebido no Departamento de Estado por Foy Kohler, Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Europeus, um atlantista da linha de Dean Acheson que deu a garantia de cooperação americana à luz das “normas precisas do Direito internacional”. Mas durante dois dias Galvão e os seus homens iludiram as manobras de busca. O baguete navegava a toda a velocidade rumo à costa de África.
Galvão quebrou o silêncio em 24 de Janeiro, com uma mensagem à National Broadcasting Corporation (NBC), de Nova Iorque. Falando em nome de Delgado, afirmou as suas intenções democráticas, garantiu a segurança dos passageiros e disse que não revelaria a localização do navio antes de abrir hostilidades contra o “tirânico governo de Salazar”. Numa outra mensagem, dirigida ao New York Times e reproduzida pelo jornal, Galvão afirmava: “Tudo normal a bordo. Informaremos o mundo no seu devido tempo faremos emissão telefónica em 2037 KCS.” Esta preferência pelos media dos Estados Unidos devia-se à esperança que Galvão alimentava de obter o apoio oficial americano.
Em Lisboa, o Governo reagiu colericamente às afirmações de Galvão “Os homens que atacaram o Santa Maria não são políticos nem ideólogos. São apenas bandidos.” No navio havia passageiros doentes e necessitados de assistência em terra. Jorge Sottomayor e os outros espanhóis opunham-se ao seu desembarque, porque indiciaria a localização do navio, mas acabou por prevalecer o “humanismo de Galvão. O testemunho dos passageiros, desembarcados na ilha de Santa Lúcia, dramatizou mais o acontecimento e trouxe credibilidade a Galváo como líder rebelde. Propalou-se a versão de que os assaltantes seriam 70 ou mais, estavam munidos de explosivos e dispunham-se a todas as ferocidades.Kennedy-e-Salazar_
Entretanto, em São Paulo, Delgado reivindicou a liderança dos capatores do Santa Maria e lançou um manifesto para a criação de uma “Republica Federal dos Estados Unidos de Portugal”. O general apelou também à Administração Kennedy para que cessasse as operações de busca, num texto entregue ao embaixador americano no Brasil, John Moors Cabot: “Peço a Vossa Excelência que informe o seu Governo imediatamente de que o incidente do Santa Maria não é um caso de pirataria ou de motim, mas a tomada de um navio português por portugueses e por motivos políticos portugueses. Peço veementemente ao seu governo que não interfira neste assunto.” O embaixador da Inglaterra, Sir Geoffrey Wallington, recebeu igual solicitação. Note-se que a relação entre Delgado e Galvão, ao contrário do que ambos deixavam transparecer, era complexa e fluida. Mortágua afirma que Delgado só soube do plano de assaltar o Santa Maria na véspera, quando recebeu um telegrama de Galvão em Coraçao. O general não abdicava da sua posição de chefe; Galvão, querendo ser líder, precisava no entanto do prestígio de Delgado; e, nesta fase, os dois utilizavam-se mutuamente.

Abertamente hostil aos captores era o governo de Juscelino Kubitschek, em 1959, a pedido directo de Salazar, impedira Galvão de se fixar no Brasil. O Ministro da Marinha, Jorge Matoso Maia, rejeitou qualquer hipótese de concessão de asilo aos rebeldes, tendo em conta os crimes de delito comum praticados a bordo, e avisou que o Santa Maria seria aprisionado se entrasse em águas brasileiras. Por outro lado, Delgado e Galvão não dispunham de muitas simpatias entre a vasta comunidade portuguesa no Brasil, no geral conservadora ou politicamente passiva. Mas alguns jornais liberais, caso de O Estado de São Paulo, atacavam o regime de Salazar e aproximava-se a investidura de Quadros, marcada para 31 de Janeiro. Galvão e Delgado tinham já ganho a cartada da propaganda: o caso Santa Maria era seguido atentamente por um “mundo incrédulo”. Portugal tão parco de emoções próprias e tão silencioso para o exterior, tornou-se num assunto focal de discussão até aos primeiros dias de Fevereiro de 1961.

in “Kennedy e Salazar: o Leão e a Raposa” de José Freire Antunes.