Vilarinho da Furna: Uma Aldeia Comunitária

Vilarinho da Furna: Uma Aldeia Comunitária de Jorge Dias

Vilarinho da Furna não existe mais; não declinou por abandono dos habitantes, mas porque uma barragem a meteu debaixo da água que submergiu leiras e casas e até o cemitério situado na parte mais alta da aldeia. Nem os mortos escaparam e dos vivos ninguém cuidou; pagas as indemnizações irrisórias, cada um se manhou como pôde, enriquecendo-se o país: de electricidade, atirando para as incertezas da vida os seus vizinhos. E, no entanto, estas aldeias comunitárias viviam numa nobre pobreza, onde os habitantes se sentiam efectivamente senhores do que cultivavam e colhiam e geriam em comum os seus interesses colectivos. Esta reedição é uma espécie de Requiem pelos pobres camponeses, pastores, moleiros e homens. de outros ofícios humildes, que não inspiram aos prestigiosos construtores de barragens outro sentimento que não seja de profundo desprezo. Infeliz- mente este crime perpetrou-se, outras aldeias ficaram debaixo de água e a famosa barragem do Alqueva, que é um erro técnico crasso porque se fecha um curso de água, gastando-se rios de dinheiro num paredão que, uns anos por outros, não chegará a encher a albufeira. Um problema que ocupou muito o espírito de Jorge Dias foi o das relações entre a cultura popular e a cultura superior. O povo, mesmo pobre e analfabeto, é um repositório de autêntica sageza, na riqueza da tradição que não exclui inovação e adaptação e na força criadora da poesia, da música, dos contos, das adivinhas, dos ensalmos, do fabrico de artefactos. completamente desconhecida da gente das cidades mas que constitui o cerne da Nação. O grande mérito de Jorge Dias foi ter-se debruçado amorosa- mente sobre este património ameaçado e transmitido numa obra que, testemunhando uma fase critica da civilização, prevalecerá sobre os desencontros dos tempos que correm. Uma obra viva como todas as manifestações superiores do Espírito.

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Categoria Autor

informação do livro

Título: Vilarinho da Furna: Uma Aldeia Comunitária
Autor: Jorge Dias
Edição: INCM
Colecção | Nº: Temas Portugueses
Ano: 1983
Páginas: 307
Encadernação: Mole

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Vilarinho da Furna não existe mais; não declinou por abandono dos habitantes, mas porque uma barragem a meteu debaixo da água que submergiu leiras e casas e até o cemitério situado na parte mais alta da aldeia. Nem os mortos escaparam e dos vivos ninguém cuidou; pagas as indemnizações irrisórias, cada um se manhou como pôde, enriquecendo-se o país: de electricidade, atirando para as incertezas da vida os seus vizinhos. E, no entanto, estas aldeias comunitárias viviam numa nobre pobreza, onde os habitantes se sentiam efectivamente senhores do que cultivavam e colhiam e geriam em comum os seus interesses colectivos. Esta reedição é uma espécie de Requiem pelos pobres camponeses, pastores, moleiros e homens. de outros ofícios humildes, que não inspiram aos prestigiosos construtores de barragens outro sentimento que não seja de profundo desprezo. Infeliz- mente este crime perpetrou-se, outras aldeias ficaram debaixo de água e a famosa barragem do Alqueva, que é um erro técnico crasso porque se fecha um curso de água, gastando-se rios de dinheiro num paredão que, uns anos por outros, não chegará a encher a albufeira. Um problema que ocupou muito o espírito de Jorge Dias foi o das relações entre a cultura popular e a cultura superior. O povo, mesmo pobre e analfabeto, é um repositório de autêntica sageza, na riqueza da tradição que não exclui inovação e adaptação e na força criadora da poesia, da música, dos contos, das adivinhas, dos ensalmos, do fabrico de artefactos. completamente desconhecida da gente das cidades mas que constitui o cerne da Nação. O grande mérito de Jorge Dias foi ter-se debruçado amorosa- mente sobre este património ameaçado e transmitido numa obra que, testemunhando uma fase critica da civilização, prevalecerá sobre os desencontros dos tempos que correm. Uma obra viva como todas as manifestações superiores do Espírito.

Peso 440 g

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