Caminhos Errados

Caminhos Errados de Aquilino Ribeiro

É este o título de um livro de Aquilino Ribeiro, livro esse de novelas, tendo incluído para teor aquele que aqui nos traz « Menos sete». Este autor devia ser de leitura obrigatória pois que em tudo exerce o dom maior da contemplação da língua que não perde o fôlego na sua vasta produção.

Nós, que parecemos ter ficado em atrofia face a estas gerações que nos precederam pois que nos basta verificar as gentes da Primeira República, onde e quiçá, ainda estão os nossos avós, para verificarmos que eram mais altos, mais bem parecidos, mais civilizados. Só a geração que se lhes seguiu pareceu estranhamente ter mirrado, havendo sem dúvida uma atrofia notória em todas as suas dimensões. Tudo isto existiu sem que fosse muito nítido um subtil “crepúsculo dos deuses”, pois que entre estas gerações há efectivamente um hiato que nos faz aludir à estrutura do pensamento como arquitecto da forma.

O corpo pode ser também esse veículo mecânico e desmontável com as próteses em rosca que desagua na nossa geração de «Crash» do Cronemberg e os implantes podem ser a forma encontrada para diminuirmos o que em nós há de massa modificável, pois que já vem feita, é precisa e mantem-se inalterável. Mesmo com ideias medonhas de sedução e excitação sexual, a tecnologia exacerba aspectos outrora desconhecidos, ou conhecidos, mas não aperfeiçoados.

Janeiro é o teor da novela de Aquilino e isto, por causa dos gatos, das noites e do escrever para as Academias, recorda-nos como tal momento nos instiga a sacrifícios, a transformações interiores e a uma saudade na lonjura que sentimos face à Primavera e nos dói só de pensar que a não saudamos uma vez mais. – É o mês dos gatos – sim – do luar, do frio, do cio… de toda a semente fechada. A descrição do magistral Aquilo começa por se manifestar assim:

“O pior é que chegou o Janeiro e escancarou-se neste bicho todo o seu impossível ser. A três quartos do Inverno os gatos pressentem na orla de claridade, mais cheia, que vem do Nascente, a quadra do Renovamento. As noites de grande luar prateado, como praias de embarque para Citera, convidam-nos ao amor. Ao seu gosto de recato e de silêncio, mesmo à sua algidez de maneiras, agrada a incomparável serenidade que o céu reveste por estas alturas…. Os gatos, de certo… Assim se combina a poesia das noites de Janeiro, amplas e religiosas como catedrais.”

7,00 

informação do livro

Caminhos Errados de Aquilino Ribeiro. Livraria Bertrand. Amadora, 1970, 317 págs. Mole.

Alfarrabista


[Exemplar por abrir]

É este o título de um livro de Aquilino Ribeiro, livro esse de novelas, tendo incluído para teor aquele que aqui nos traz « Menos sete». Este autor devia ser de leitura obrigatória pois que em tudo exerce o dom maior da contemplação da língua que não perde o fôlego na sua vasta produção.

Nós, que parecemos ter ficado em atrofia face a estas gerações que nos precederam pois que nos basta verificar as gentes da Primeira República, onde e quiçá, ainda estão os nossos avós, para verificarmos que eram mais altos, mais bem parecidos, mais civilizados. Só a geração que se lhes seguiu pareceu estranhamente ter mirrado, havendo sem dúvida uma atrofia notória em todas as suas dimensões. Tudo isto existiu sem que fosse muito nítido um subtil “crepúsculo dos deuses”, pois que entre estas gerações há efectivamente um hiato que nos faz aludir à estrutura do pensamento como arquitecto da forma.

O corpo pode ser também esse veículo mecânico e desmontável com as próteses em rosca que desagua na nossa geração de «Crash» do Cronemberg e os implantes podem ser a forma encontrada para diminuirmos o que em nós há de massa modificável, pois que já vem feita, é precisa e mantem-se inalterável. Mesmo com ideias medonhas de sedução e excitação sexual, a tecnologia exacerba aspectos outrora desconhecidos, ou conhecidos, mas não aperfeiçoados.

Janeiro é o teor da novela de Aquilino e isto, por causa dos gatos, das noites e do escrever para as Academias, recorda-nos como tal momento nos instiga a sacrifícios, a transformações interiores e a uma saudade na lonjura que sentimos face à Primavera e nos dói só de pensar que a não saudamos uma vez mais. – É o mês dos gatos – sim – do luar, do frio, do cio… de toda a semente fechada. A descrição do magistral Aquilo começa por se manifestar assim:

“O pior é que chegou o Janeiro e escancarou-se neste bicho todo o seu impossível ser. A três quartos do Inverno os gatos pressentem na orla de claridade, mais cheia, que vem do Nascente, a quadra do Renovamento. As noites de grande luar prateado, como praias de embarque para Citera, convidam-nos ao amor. Ao seu gosto de recato e de silêncio, mesmo à sua algidez de maneiras, agrada a incomparável serenidade que o céu reveste por estas alturas…. Os gatos, de certo… Assim se combina a poesia das noites de Janeiro, amplas e religiosas como catedrais.”

Peso 380 g

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