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Júlio Dantas

Prosador (crónica, ficção, oratória, ensaio), dramaturgo fértil, poeta, médico, jornalista, diplomata e académico, Júlio Dantas constituiu, com alguma razão e com alguma injustiça, o alvo preferido dos argonautas do primeiro modernismo. A repercussão que ficaram a ter as frechadas que lhe destinou Almada Negreiros no demasiado famoso e demasiado influente Manifesto Anti-Dantas (1916) ainda hoje se faz sentir no silêncio embaraçado que rodeia a menção do nome do autor de A Severa (1901). Licenciado em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, depois de estudos feitos no Colégio Militar, o autor da festejada Ceia dos Cardeais (1902) viria a desempenhar numerosos cargos oficiais e não oficiais de prestígio: comissário do Governo junto do Teatro de D. Maria II, professor e director da Secção de Arte Dramática do Conservatório, inspector superior das Bibliotecas e Arquivos, etc. Foi deputado e quatro vezes ministro, tenho representado o nosso país no estrangeiro em várias missões diplomáticas. Foi membro da Academia das Ciências a partir de 1908, tendo-se tornado, em 1922, seu presidente quase vitalício. Os numerosos e importantes cargos oficiais que desempenhou, a sua longa presidência da Academia e a sua pequena solenidade hirta e talvez autocomplacente com que teria assumido a sua postura oficiosa fizeram dele, como se disse, o destinatário privilegiado de muitas surriadas oriundas da geração modernista. Júlio Dantas passou, com algum fundamento, pelo ornamento beatificado do Estado Novo, exemplo clássico do escritor conformista ao serviço de um regime que o promoveu e com ele se promoveu. Nisto tudo há muito de injustiça, sobretudo se se reduzir a esta caricatura uma figura literária bem mais rica e contraditória: uma peça como Santa Inquisição (1910), por exemplo, revela, no autor de Pátria Portuguesa (1914), pelo menos um passado de violento e quase feroz anticlericalismo, de iconoclasta e frondeur, em contraste cru com a pompa oficiosa dos anos de maturidade. Por outro lado não se pode esquecer nem um romance como A Severa (1901), nem a pureza ática de uma prosa bebida numa fecunda e sólida formação de humanista. Numa época em que, entre nós, tão mal se escreve, uma passagem, de vez em quando, pelas páginas de Pátria Portuguesa (contos), de Os Galos de Apolo (crónicas, 1921) ou de Tribuna (discursos, 1960) constituiria terapêutica aconselhável.