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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira: se este nome tem, para todos, uma ressonância especial no panorama da cultura portuguesa do nosso tempo, tem ainda, para quantos o conheceram e privaram com ele, o poder de evocar alguém com toda a força de uma presença concreta: o grande criador literário, o grande professor, o grande crítico, o cidadão, o europeu à outrance, com certeza; mas também o Homem e a sua riquíssima personalidade, a sua amizade sem falhas, a sua gentileza de trato, a sua imensa cultura vivida, a sua maneira de se exprimir, afável e sempre bem articulada, o seu humor temperado de fina ironia; e, claro, o seu proverbial cachimbo, o fato de tweed a dar-lhe um toque desportivo à postura confortável, o seu lado gourmet, o seu amor das viagens e dos livros…

Para o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que foi director durante quase 15 anos, David Mourão-Ferreira foi tudo isso e foi ainda muito mais: teorizou, definiu, pôs em prática orientações em que se aliavam poderosamente o sentido da missão cultural e a dedicação à causa do livro e da lei tura, numa rede que cobre o território nacional de um país em que é sempre de menos o que em prol de ambos se faça. David, que nessa qualidade percorreu Portugal de lés-a-lés, contactando pessoas e instituições, detectando problemas, encontrando soluções, fazendo conferências, David, sempre empenhado, disponível e generoso, merece pois a profunda gratidão de todos: do serviço que dirigiu, da Fundação Calouste Gulbenkian e dos Portugueses. Dizendo-o, limito-me a assinalar um tópico importante que careceria de muitas páginas para ser desenvolvido.

Dedicar à sua memória o presente número de um Boletim que ele também orientava, pretende ser mais do que um acto de justiça elementar. Desejaríamos que a iniciativa tivesse um significado cultural e funcionasse portanto em termos de que ele havia de gostar, revestindo-a de aspectos úteis para o conhecimento da Obra e do Homem e colocando-a, tanto quanto possível, ao alcance de todos. Por isso pedimos a Eduardo Lourenço que escrevesse um ensaio de apresentação como só ele sabe escrever, decidimos reproduzir a última e comovente antologia por David organizada – a do CD Um Monumento de Palavras, em que a textura dos poemas se encontra na materialidade da voz do seu autor -e procuramos organizar uma breve “fotobiografia”, fechando o volume com um esboço de cronologia e de bibliografia.

Cabe agradecer a Pilar Mourão-Ferreira, viúva do escritor, a Adelaide Mourão-Ferreira Castaño e David Ferreira, seus filhos, que prontamente cederam muitos dos materiais aqui utilizados e deram autorização para que esta publicação se fizesse, a Eduardo Lourenço que escreveu o magnífico texto introdutório, a Natalina Oliveira do Carmo, assessora da direcção deste serviço, que assumiu a coordenação deste número e ainda a Martim Lapa, que assegurou a sua orientação gráfica, todos os contributos que o tornaram possível. E, last but not least, ao Senhor Professor Doutor Ferrer Correia, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que imediatamente aprovou, aplaudindo-o sem reservas, o projecto que nesse sentido lhe apresentámos. Possa a figura de David Mourão-Ferreira tornar-se ainda mais presente com este tributo dedicado à sua memória.

Vasco Graça Moura

in Boletim da Fundação Calouste Gulbenkian