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Censura: O Encoberto de Natália Correia

O Encoberto de Natália Correia

O Encoberto de Natália Correia

Publicado em 1969, O Encoberto conta a história de Bonami-rei que se faz passar pelo rei D. Sebastião, com o cognome de O Encoberto ou O Desejado. A história depreende-se em várias críticas a um povo crente, iludido, que não quer ver a realidade e, ao mesmo tempo, a uma falsa nobreza, interesseira, que só pensa em dinheiro. Mas mais. Segundo o relatório da censura, de 1970, “trata-se do desenvolvimento em estilo ‘paródia’ de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de ‘Natália Correia’, com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar”.

RELATÓRIO Nº 8665 (3 DE FEVEREIRO DE 1970)

“Trata-se do desenvolvimento em estilo de “paródia” de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de “Natália Correia”, com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar.”

RELATÓRIO Nº 8665 (3 DE FEVEREIRO DE 1970)

A 7 de Abril de 1969, Natália Correia escreve uma carta a Marcelo Caetano, para reverter a decisão da Censura:

Excelência:

As palavras que Vossa Excelência há poucos meses dirigiu àquele grupo de intelectuais que junto de Vossa Excelência representou os signatários de uma carta que eu também tive a honra de subscrever, encorajam-me a vir individualmente à sua presença para expor um caso concreto, que reputo de fundamental importância na minha carreira e na própria actualidade cultural portuguesa.

Sei que Vossa Excelência tem reservas, que lhe parecem legítimas, quanto a um estudo e antologia por mim publicados (aliás com propósitos acentuadamente crítico-culturais), mas sei também que autorizou o meu amigo e camarada de letras David Mourão-Ferreira a transmitir-me essas mesmas reservas, e tal atitude tão francamente directa da parte de Vossa Excelência mais me anima a trazer ao seu conhecimento o referido caso.

Desejou vivamente o Teatro Experimental de Cascais, há cerca de um ano, levar à cena uma peça da minha autoria, intitulada O Encoberto, por enquanto inédita e cujo tema é, sucintamente, um novo tratamento do mito sebástico, não só representativo de um saudosismo tipicamente português, mas também de um messianismo universal. Entendeu, no entanto, a Censura da época descortinar abusivamente, em certos pontos, menos veracidade histórica onde na realidade existia uma interpretação poética – e crítica – da História, dentro daquela liberdade de criação dramatúrgica sem a qual não admitiríamos, nomeadamente, o teatro de um Shakespeare. Refuto, por outro lado, como igualmente abusiva, qualquer interpretação tendente a ver um propósito de crítica à actualidade portuguesa, porquanto, no final da peça, quando se dá uma transposição do mito para a actualidade, essa actualidade é declaradamente universal, propondo-me eu um confronto de natureza mítica entre a imaginação e os valores oníricos, por um lado, e, por outro, o condicionalismo tecnológico que despersonaliza dos homens.

Assombrou-me, por isso mesmo, que uma peça que contém valores puramente espiritualistas, isentos de toda e qualquer ideologia política, pudesse incorrer no desagrado da Censura; e verifiquei assim que essa Censura não estava então culturalmente preparada para entender o conteúdo desta minha obra. Na esperança de que tal óbice tenha sido entretanto remediado, e confiando sobretudo na dignidade intelectual de Vossa Excelência, é que me atrevo a chamar a sua esclarecida atenção para o caso que acabo de expor. Devo ainda precisar que não me move um interesse meramente pessoal: com efeito, o Teatro Experimental de Cascais, que tanto prestigiou o teatro português no recente Festival de Barcelona, insiste em levar à cena aquele meu original e desejaria fazê-lo, por conveniência de repertório, com a maior brevidade, – se possível, mesmo, a seguir à peça que tem actualmente no cartaz. Para isso, todavia, necessita da pronta revisão, por parte da Censura, do veredicto que, há cerca de um ano, injusta e precipitadamente condenou a obra.

Na esperança de que Vossa Excelência, cujas decisões são tão relevantes para a Cultura portuguesa, tome em devida consideração o assunto que expus.

Subscrevo-e, com os protestos da mais alta consideração,

Natália Correia

Lisboa, 7 de Abril de 1969

Fontes:
Relatório da Censura in https://ephemerajpp.com/2012/02/06/censura-relatorio-no-8665-3-de-fevereiro-de-1970-relativo-a-o-encoberto-de-natalia-correia/
Carta de Natália Correia a Marcelo Caetano in https://www.esquerda.net/dossier/natalia-correia-censura-de-o-encoberto/63139