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A Base das Lajes

A Base das Lajes

Como vimos, britânicos e americanos tinham, até certo ponto, competido pelo direito de estabelecerem bases nos Açores. Porém, quando a de uma solução negociada vingou na Gra-Bretanha, os americanos concordaram em recuar, embora continuassem a exercer pressão sobre Londres para assegurar que o acordo que fosse conseguido em relação aos Açores se aplicasse também às suas forças. Os britânicos resistiram a essa ideia, temendo que um pedido nesses termos pusesse em risco o acordo

Era preferível, alegavam, esperar até a base estar operacional antes de formular um pedido sobre o seu uso pelas forças americanas – e entretanto, tentariam incluir, na versão final do acordo, uma referência às facilidades de trânsito para toda a aviação das Nações Unidas». Contudo, este compasso de espera não se coaduna com as necessidades militares americanas, pelo que, no início de Setembro de 1943, os chefes de Estado-Maior americanos apresentaram uma proposta para o seu envolvimento nos Açores; segundo um historiador, estas «consistem numa ocupação americana de duas ilhas com uma força de cerca de 10 000 homens.

Pediam assim muito mais do que nós tínhamos conseguido obter com considerável dificuldade depois de invocarmos a nossa Aliança especial com os portugueses. Churchill apoiou a proposta americana. Eden opôs-se: o chefe de Estado-Maior da Real Força Aérea, Medhurst, foi enviado a Washington para informar os americanos do que fora alcançado em Lisboa, enquanto Eden explicava a Churchill:

“É importante que os americanos percebam que o Portugal moderno que, para todos os efeitos, quer dizer o Dr. Salazar, não é uma segunda Guatemala, do qual o desejo americano tudo pode obter graças simples mente a ameaças ou subornos,”.

A 6 de Outubro, o presidente Roosevelt voltou a intervir, transmitindo a Churchill uma recomendação recebida dos chefes de Estado-Maior dos três ramos das Forças Armadas sobre a necessidade urgente de os Estados Unidos terem acesso aos Açores, Churchill pediu-lhe para esperar uns dias, até se conhecer a reacção alemā ao acordo dos Açores. A 14 de Outubro Roosevelt informou Churchill de que tinha obtido informação de que Salazar provavelmente acederia a um pedido americano para uso das bases nas ilhas e propôs abordar pessoalmente o Governo português: por essa altura, os britânicos agradecem até que os americanos seguissem esse rumo, já que isso os aliviaria da dificuldade de se dirigirem ao Governo português para “pedir mais”», bem como da responsabilidade de o pedido americano ser eventualmente recusado. A 16 de Outubro foram enviadas instruções para o encarregado de Negócios americano em Lisboa, Kennan, e dois dias depois já ele respondia:

“Tenho relutância em entrar numa discussão com o Departamento ou em pedir ao Departamento para o fazer junto do Presidente a respeito de uma instrução que recebi do Presidente. Por essa razão, não citarei aqui as várias razões para estas opiniões …]. Agradeceria se o Departamento, em vez de requerer que eu execute já a instrução, me permita regressar de imediato a Washington a fim de explicar, se necessário, pessoalmente ao Presidente, as razões do meu ponto de vista sobre o assunto.”

Após mais algumas querelas transatlânticas, e uma promessa americana de «respeitar a soberania portuguesa em todas as colónias portuguesas», Kennan encontrou-se com Salazar a 23 de Novembro.

O que daí emergiu foi um acordo de compromisso – os navios americanos podiam utilizar o porto da Horta, algo já contemplado no acordo com a Grã-Bretanha, enquanto aviões americanos podiam usar desde que pudessem ser descritas como parte das forças da Commonwealth: os americanos andam a reboque do acordo britânico em vez de assinarem um documento separado.

Mas a história não se ficou por aqui. Houve, algures, um problema de comunicações, já que Salazar não se apercebeu de que os Estados Unidos tencionavam comandar um esquadrão a partir dos Açores a tempo inteiro e que, para adaptar a base existente a estas necessidades adicionais de infra-estrutura,
seria enviado pessoal de construção – de facto, esse pessoal já estava a caminho quando Salazar foi informado do assunto. Graças à intervenção britânica, de autorizou os trabalhadores de construção a desembarcarem, mas recusou autorização para que o esquadrão operasse a partir dos Açores. Como sempre nesta matéria, Churchill aliou-se aos americanos, ao contrário de Eden.

Por que é que os americanos precisavam de sediar um esquadrão nos Açores, duplicando as funções anti-submarinas já desempenhadas pela RAF? Porque é que não podiam modificar os seus aviões e uniformes para parecerem, ainda que superficialmente, de alguma forma incorporados nas forças britânicas?

A questão arrastou-se desnecessariamente durante meses até que se chegou enfim a um acordo em meados de Julho de 1944: o pessoal americano usaria insígnias americanas e britânicas. Salazar levara a sua avante.

Havia um preço político a pagar pelo uso dos Açores pelos Aliados, especialmente os americanos: a população local, cujos laços com os Estados Unidos eram reais, suscitando desconfiança em Lisboa, ficou deslumbrada com o poderio e riqueza das forças americanas. Como Marcelo Caetano, escrevendo em Novembro de 1944, afirmou:

Após uma experiência bastante má das relações das nossas tropa expedicionárias com a população (inclusivamente requisições feitas há dois anos e mais que ainda não estão pagas) chegou o Inglês e depois o Americano. E o Americano paga tudo, o Americano dá com largueza, e o Americano resolve, repara, constrói, reforma com facilidade incrível. O terceirense, segundo as minhas informações, está perfeitamente embasbacado com o Americano! Daí o alarme dos nossos amigos mais fiéis, que lembra, a necessidade urgente de um apoio moral e material.

in “Envolvimento Americano nos Açores”, Salazar de Filipe Ribeiro de Meneses. Vol. 4, pp. 41-43.

Créditos da Fotografia: By Royal Air Force official photographer, Hensser H (F/O) – http://media.iwm.org.uk/iwm/mediaLib//50/media-50620/large.jpgThis is photograph CA 143 from the collections of the Imperial War Museums., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=30849496