50º Aniversário Literário de Maria Amália Vaz de Carvalho

Uma flor basta para simbolizar uma estação do ano. Uma data basta para evocar toda uma época.

Ha cinquenta e um anos, uma admirável, luminosa primavera floriu em Portugal. Nas árvores em que começava a cantar a écloga dos ninhos e dos perfumes; na distância azul do céu; na graça dos jardins; na geórgica dos campos, uma alma nova estremecia e acordava. Sobre a terra, em que palpitavam as raízes e os regatos, a doce Deusa dos Amores, desprendidas ao vento as tranças louras, bela e descalça, caminhava, sorrindo – e o seu regaço semeava as rosas que iam nascer e os jasmins que iam noivar…

Da alvorada de todos esses aromas, da frescura de todas as fontes, do claro e nascente despontar de todos esses idílios, precursores da doçe estação dos poetas, uma flor rara e imortal ia despontar. Da primavera da terra, que chegava, uma outra primavera portuguesa ia surgir – uma primavera de mulher. Tal era, por uma feliz inspiração, o título do livro que, aliando, nesse ano remoto e saudoso de 1867, a graça do Talento às galas juvenis da Natureza, ia dar a Portugal as primícias duma poesia e a glória literária duma mulher.

Simplesmente, a primavera desse ano distante passou, abrasada nas poeiras do estio, sepultada nas sombras do inverno e outras primaveras dessa primavera nasceram para igualmente morrerem, desfolhando-se nos canteiros e nos prados. Só essa primavera feminina ficou cantando imortalmente, reverdecendo e florindo sem que a estiagem a crestasse ou o agreste vento de dezembro a atingisse.

Há cinquenta anos que essa Primavera de Espírito dura – e é esse surpreendente milagre que nós vimos hoje aqui festejar, dentro das paredes desta Biblioteca, onde arrefecem na poeira os velhos in-folios.
Não conheço, efectivamente, imagem que mais do que esta me dê a impressão deste talento doce, florido, gorgeante de mulher. Um céu luminoso e azul cobre, envolve os cinquenta anos de vida literária desta escritora tão finamente espiritual. Sobre esse céu transparente nunca uma nuvem de vaidade ou uma sombra de maledicência pousou. A ironia, a erudição, o conselho, a subtileza de análise, a própria polémica, resumem-se nesse espírito numa única, dourada, clara expressão moral: a ternura. E, porque soube manter-se perpetuamente feminina, a sua inteligência, mesmo nos trabalhos graves da história e da crítica filosófica, conserva sempre a graça ondulante, discreta, rescendente, duma primaveril sensibilidade.

Há três classes de mulheres de letras – lembro-me de ter escrito, algures: as escritoras-homens, as escritoras-mulheres e as escritoras-senhoras. As primeiras são o caso literário frequente de quem, ao transpor a publicidade, se masculiniza, toma atitudes e opiniões masculinas, veste intelectualmente pelos últimos figurinos do homem e, como regra, na sua mais inestética forma. Ao lado deste exemplo, aparece a escritora que, ficando ainda dentro do seu sexo, perde no entanto, como George Sand, no impudor das camaradagens literárias, o melhor das reservas e dos recatos que nós, bem ou mal, nos habituamos a respeitar nas fragilidades femininas.

D. Maria Amália Vaz de Carvalho é um dos raros modelos da terceira categoria: figura senhoril que, para ser uma batalhadora de ideias, uma educadora, uma cronista condescendente e culta do seu tempo e do passado, escrevendo dezenas de livros de lirismo, de pedagogia, de historiografia, de ressurreição literária, nunca precisou de sair da penumbra discreta e florida do seu salão.

E, sendo pela convivência, pela aristocracia do meio, pelas predilecções morais, pela sensibilidade e pela educação, uma alta e nobre senhora, nunca deixou, por esse facto, de ser em tudo o que constitui a emotividade, a doçura, a simplicidade, o protótipo perfeito da mulher portuguesa.

Desde os seus olhos, em cujas contas negras arde uma imortal espiritualidade, até à feição quási cândida da sua modéstia, à singeleza do seu viver e à amorosa ternura, tão docemente maternal, da sua obra, D. Maria Amália Vaz de Carvalho é uma figura admirável da raça com o sentimento, a inteligência e o sangue bem profunda e vivamente nacionais.

O sentimento nacional, nas elites sociais, é uma qualidade muito mais masculina que feminina. A mulher, quando atinge uma certa superioridade cerebral, desnacionaliza-se muito mais facilmente do que o homem. As suas faculdades de adaptação dão- -lhe, na maioria dos casos, uma difícil hegemonia mental. D. Maria Amália Vaz de Carvalho, justamente porque é um temperamento fundido no mais fino aço, soube conservar, a despeito de todas as instigações duma profusa e notabilíssima erudição, de todas as gloriosas contingências duma eminente situação literária e aristocrática, a sua encantadora feminilidade portuguesa – ia quási dizer provinciana. A sua inteligência foi sempre feita de coração e se a natural singeleza do seu ânimo lhe evitou o preciosismo, a clara bondade da sua alma, muito mulher e muito nossa, afastou-a dos extravagantes figurinos da Eva intelectual e cosmopolita do nosso tempo.
Essa admirável senhora, que tratou de perto com Rainhas e Princesas, amiga íntima da Duquesa de Palmela, relacionada com a nossa mais alta aristocracia do talento e do sangue, nunca perdeu aquela humildade acolhedora, que é um dos maiores encantos do seu talento e da sua obra; esse inquieto e curioso espírito, poliglota e polígrafo, nunca deixou de escrever cristalinamente em português – no nosso português, caseiro e amigo, tostado de sol e perfumado de giestas; essa mulher eminente que, durante largos anos viveu pela pena, como Camilo ou Pinheiro Chagas, nunca foi feminista, nem sentiu a necessidade de pregar a emancipação política do seu sexo.

Portuguesa por essa branda virtude, protectora e afectiva, feita de indulgência e de conselho, que é o fundo da sua obra de educadora; portuguesa pelo lirismo, pela simplicidade, pela candura da sua inspiração; portuguesa pela modéstia com que sempre, em ostentações e vaidades, soube apagar-se; portuguesa pelas suas qualidades de lar, de resignação perante o sofrimento, de coragem perante a adversidade, de chá doçura na glória e no triunfo; portuguesa pelo seu amor aos humildes, às crianças, ao sacrifício, pela louçania do dizer e pela graça do bem fazer, pelo seu poder de simpatia – essa escritora que publicou mais de duas dezenas de volumes sem nunca escrever uma palavra amarga ou cruel, essa mulher que nunca disse mal doutra mulher, ficou pela vida fora imagem, espelho e modelo de todas as almas femininas de Portugal – a boa, rara e fiel amiga, que a musa inolvidável de Gonçalves Crespo, seu marido, cantou na dedicatória dos Nocturnos.

Voltaire, um dia, falando dum poeta que nunca lera, como alguém lhe observasse ésse facto, respondeu:
– Não preciso de o ler; basta-me tê-lo visto. Na realidade, se o escritor imprime um pouco da sua fisionomia à sua obra, não há dúvida de que no fim duma larga vida literária, da sua obra recebe um pouco da fisionomia que lhe deu. Como Eça de Queiroz dizia das Farpas e de Ramalho Ortigão, não é apenas o homem de letras que faz a sua obra; muita vez, em muitas modalidades de espírito, a obra completa o escritor.

Quando há alguns anos tive a honra de entrar, pela primeira vez, no salão da casa da travessa de Santa Catarina, que alguém denominou, com justiça, o último salão de Lisboa, centro de sociabilidade e literatura como o foram, no seu tempo e no seu meio, os salões de madame de Sablé, de mademoiselle d’Espinasse ou de madame Recamier, eu, que apenas, num casual e rápido encontro, ti- vera ensejo, havia já bastante tempo, de beijar a mão da sr. D. Maria Amália Vaz de Carvalho, encontrei-me em face duma espiritualíssima visão, cujo encanto acordava no meu espírito lembranças profundas e dispersas. Numa extrema, lúcida, luminosa palidez – a mocidade de dois olhos fulgindo na sombra, rápidos, penetrantes, como duas avesitas cantando e a graça ondeante, fluida, branca, de duas mãos.

As mãos das mulheres são o que elas teem de mais espiritual disse d’Annunzio. Os olhos e as mãos de D. Maria Amalia Vaz de Carvalho são – pode dizer-se-a única coisa que ela tem de material. O resto é espírito chama nervosa e inconsumível.

Essa figura, iluminada por dois gorgeios de rouxinol feitos luz, desenhada pela delicadeza de duas mãos criadas para abençoar e proteger, faites pour toucher l’âme et montrer le firmament, como dizia Vítor Hugo-mãos que lembram as que os pintores desenham a Leão XIII pareceu-me logo, não sei porque estranha e fulgurante impressão, nascida da obra, tão cheia de idealidade, de ternura, de juventude e de carícia, da autora das Mulheres e crianças, dos Contos para os nossos filhos, das Cartas a Luiza, de As nossas filhas e de No meu cantinho. Do gesto, umas vezes lento, outras vivo, sempre melodioso e reflexivo, dessas mãos maternais, ao mesmo tempo voluntariosas e graciosas, graves e sublimes, mãos de pensador e mãos de mulher, parecia desprender-se a claridade e a harmonia de pensamento que escreveu a Vida do Duque de Palmela e os Cérebros e corações. Nesse olhar feminino, lírico, juvenil, em que dir-se-ia que gorgeiam sombras, eu ouvia cantar ainda a frescura e o lirismo da Primavera de mulher e das Vozes do Ermo. E da sua palavra fina, musical, da qual parece pender sempre um sorriso, evolava-se a indulgência e a bondade das mil palavras de ensinamento e simplicidade que ela soube dizer às noivas, às mães, a todas as mulheres de Portugal.

A impressão de simpatia da sua pessoa é a mesma impressão de simpatia da sua obra. Não se descreve facilmente de que requisitos é construída essa simpatia: um não sei quê de experiência, um não sei quê de perene mocidade, uma doce mistura de saber e de poesia, de inteligência e de coração de hospitalidade provinciana, de graça de salão, de perfume de jardim. Aqueles a quem uma vez comoveu esse espírito, que dir-se-ia o dum Michelet nascido num coração de mulher portuguesa, ou através dele entreviram essa luminosa estrada da bondade que é toda a essência superior da vida, veem agora pagar à Excelsa Princesa da Modéstia e do Talento a dívida que com ela criaram: Festa de escolas, festa de elegância, festa de flores porque é uma Festa Feminina – é também uma festa de Academia e a esta venho eu trazer, por encargo honrosíssimo dos meus confrades, a insignificância do meu nome. Não posso esquecer, porém, nesta hora, que por um excesso da indulgência da sr. D. Maria Amália, a sua glória anda ligada, numa recordação, que é uma das mais belas evocações da minha vida literária, a um livro meu. As últimas linhas que da sua pena admirável saíram foram escritas numa edição duma obra minha e o título de amigo com que nessas linhas a ilustre senhora me quis honrar é o maior que trago, sobre todas as insígnias académicas, para esta comemoração.

Prestígio indefinível e misterioso do Talento e do Coração! A Primavera de Mulher, que há cinquenta e um anos reverdeceu em Portugal, ressurge de novo agora na calma e pesada luz desta Biblioteca museu de mortos. Primavera que há meio século canta numa alma de mulher – tão verdadeira é a frase de Fontenelle que a biógrafa eminente da marquesa de Alorna não se esqueceu de citar- a curiosidade basta para alimentar a existência»; primavera milagrosa de entendimento e de bondade – ei-la que, ante os nossos olhos, surge, em aromas de sol, em rendas de luz, em asas de brisa, em alvorecer de ninhos.

…Nas ramarias altas, um sussurro de amor passa; o ar impregna-se da rósea transparência dos canteiros floridos; as águas estendem à terra o seu beijo ondulante; a vibração das cores enche o espaço azul. Primavera da terra de que há cinquenta e um anos se fez uma primavera de mulher; – primavera imortal de mulher que hoje evoca e acorda ante nós esta efémera e precursora ilusão da primavera da terra!…

in Cartas a uma Noiva de Maria Amália Vaz de Carvalho. Empresa Literária Fluminense. Lisboa, 1923, 280 págs. Mole.

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