Publicado em

Soeiro Pereira Gomes

Soeiro Pereira GomesConcluído o curso de regente agrícola em Coimbra, partiu para África em fins de 1930, onde permaneceu durante um ano. De regresso a Portugal, fixou-se em Alhandra onde se empregou nos escritórios de uma fábrica de cimento. Foi um dos pioneiros do neo-realismo português, colaborando no jornal O Diabo.
O escritor ter-se-ia assumido como tendencialmente autor de contos e crónicas. Segundo o testemunho do prefaciador das suas obras completas, reunidas num só volume, em 1992, Luís Augusto Costa Dias (responsável igualmente pela organização e pela fixação do texto), Soeiro Pereira Gomes teria tentado publicar um primeiro conto, intitulado «O Capataz», em 1935 no semanário O Diabo, cujo original lhe teria sido devolvido sem publicação, e só entre 1939 e 1941 inicia ali a colaboração, sob os auspícios de Alves Redol. Outro indício dos planos autorais de Soeiro Pereira Gomes são textos originais dactilografados, nomeadamente uma crónica – inserida, por sugestão do título, «Última Carta», no final do volume das Obras Completas – que contém a seguinte anotação: «De um livro em preparação. Diário» –, o que remete para a intenção conhecida, e confirmada no espólio, da publicação de um volume de crónicas intitulado Diário dum Foragido.

Da sua actividade como romancista, que por fim abraçou, apenas Esteiros (1941) foi publicado em vida, escrito «para os filhos dos homens que nunca foram meninos». Com uma linguagem despojada e espontânea, Soeiro Pereira Gomes ficciona, neste livro desde então paradigmático, os problemas e as lutas reais dos trabalhadores, através de uma história de meia dúzia de miúdos do Telhal Grande, em pleno Ribatejo, cuja idade oscilava entre os dez e os doze anos, que – sem tempo nem condições para ser crianças – de Verão trabalham, como adultos, numa fábrica de tijolos e nos restantes nove meses de fome e frio roubam ou pedem esmola para conseguirem ver chegar o Verão seguinte.

Considerado um dos melhores livros escritos na década de quarenta, em plena Segunda Guerra e concretamente em plena ditadura salazarista, este romance marcou profundamente o seu tempo, não restringindo o seu sucesso apenas a determinada classe afecta à «literatura proletária», como podemos verificar por algumas frases que, sobre a sua experiência pessoal de leitura, anotou Vasco Pulido Valente «[…] A sua miséria e o seu abandono são de repente a sua liberdade e a liberdade pura alegria. […] Descalços, esfarrapados, famintos, com a mãe a morrer ou o pai desempregado, submetidos por uns tostões à inominável violação de um trabalho animal, estas crianças nunca pedem dó e nunca fazem dó. […] por não se darem à nossa piedade, o massacre da sua inocência surge como a ignomínia que é.»

De resto, se o ideologismo programático do neo-realismo se inscreve nas expectativas daqueles que consideravam a literatura como um instrumento de luta, a palavra «Partido» é omissa, enquanto tal, deste livro, particularmente por motivos óbvios de censura – mas igualmente, salvo raríssimas excepções, dos seus contos –, não deixando aquele, enquanto instituição, de estar implícito simbolicamente.

Ao espírito de rebeldia inscrito à flor de Esteiros sucede a génese de uma manifesta consciência de classe no romance de que ultimava a revisão quando a morte o surpreendeu prematuramente: Engrenagem. Este livro – que se destinaria (ainda segundo Costa Dias, fundamentado na correspondência trocada entre o escritor e Fernando Namora e Joaquim Namorado) a integrar a colecção coimbrã de «Novos Pensadores» – foi publicado em 1951 por iniciativa dos dois irmãos do autor, Alice Gomes e Jaime Pereira Gomes, e principalmente de Adolfo Casais Monteiro, seu cunhado.

É curioso notar que a primeira versão dactilografada deste romance, a partir dos dados obtidos na investigação do espólio literário do autor, teria o título de «Embate», ainda que, na última referência que o escritor lhe faz, volte a nomeá-lo como foi editado, e que para o mesmo Soeiro Pereira Gomes pensara no pseudónimo João Amargo. Digna de interesse é também a informação das dificuldades encontradas na fixação textual deste romance, constante da referida «Introdução» às Obras Completas, já que considerações técnicas, prendendo-se com a análise e a crítica genética do texto, determinam a escolha de uma versão inédita, dada à estampa em 1992, preterido o texto publicado 41 anos antes, em favor do seguinte argumento: «[…] Ignorando-se, em 1951, a existência de um manuscrito original […] foi, na altura, seguida a versão dactilografada […] única conhecida […] e que entretanto se perdeu. Hoje, porém, a reunião daquele espólio permitiu o aparecimento […] [de uma] cópia química da [2ª.] versão […]».

Foi esta versão, com emendas e profundas alterações manuscritas – quase integralmente do foro das motivações de ordem político-ideológicas, se considerarmos o exemplo escolhido sob a forma de fac simile –, que o responsável da edição escolheu como última, baseando-se no facto de tais modificações só terem sido possíveis como resultantes de uma experiência de cinco anos de clandestinidade, posteriores à data («Setembro 1944») que indica o final da 1ª. versão, publicada em 1951. Dessa luta organizada e clandestina nasceram muitos dos seus Contos Vermelhos, escritos entre 1945 e 1949 e publicados em 1951.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997