Orpheu 3

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Título: Orpheu 3
Autor: Arnaldo Saraiva [Intr.]
Edição: Ática
Ano: 1984
Páginas: 102
Encadernação: Mole
Capa: João Machado

 

SINOPSE

Nascido o projecto de Orpheu, em Fevereiro de 1915, os primeiros dois números saíram rapidamente, em Março e em Junho. Mas a publicação de Orpheu 3 arrastou-se, dando azo a vários sumários bastante diversificados, até que quase, quase conseguiu sair. E nesse estado de “quase” ficou para sempre: em provas tipográficas impressas em Julho de 1917, sem capa e sem a colaboração de Álvaro de Campos (1), que fazia imensa falta. É claro que a principal dificuldade foi financeira, uma vez que o pai de Sá-Carneiro — patrocinador de Orpheu 1 e 2 — fechara a torneira, mas havia outra: era difícil arranjar boas colaborações. Em Julho ou Agosto de 1915, Pessoa escrevera para Macau, na esperança de poder dedicar cerca de dez páginas de Orpheu 3 a um dos maiores poetas portugueses, Camilo Pessanha, então praticamente inédito. Deixou de o ser, porém, em Dezembro de 1916, quando Luís de Montalvor publicou, na revista Centauro, os mesmos poemas de Pessanha que Pessoa queria divulgar em Orpheu. Os bons poetas e prosadores portugueses não abundavam e nem todas as colaborações para Orpheu 3 — como bem observou Arnaldo Saraiva na edição do número que organizou para a Ática (1984) — são memoráveis. Analisando friamente os conteúdos dos três números da revista, temos, aliás, de concordar com Teresa Rita Lopes (PÚBLICO, 24.iv.2015) quando afirma que a revista Orpheu não trouxe assim tanto de literatura realmente nova e modernista. Fernando Cabral Martins, no seu também excelente artigo sobre Orpheu para o PÚBLICO (23.v.2015), refere a “paixão da Vanguarda” e a revolta contra as convenções que ligavam os membros do grupo, mas esta paixão e esta revolta concentravam-se, sobretudo, em três figuras: Fernando Pessoa (acolitado pelo seu heterónimo Álvaro de Campos), Mário de Sá-Carneiro e José de Almada Negreiros. Foram também eles que colaboraram com obras que podemos apelidar de “modernistas”.

O espírito revolucionário (literariamente falando) começou a manifestar-se em Pessoa e Sá- Carneiro e foi contaminando os outros — até de modo clandestino. Ao reverem as provas do primeiro número, os dois amigos deixaram passar gralhas existentes na Introdução de Luís de Montalvor, porque “assim ainda se entende menos” (segundo Sá-Carneiro disse a Pessoa), e permitiram que um soneto de Ronald de Carvalho saísse mal pontuado para criar um efeito mallarmeano. Estas pequenas maldades foram altamente significativas, uma vez que Montalvor e Carvalho eram os co-directores oficiais do primeiro número e de revolucionário tinham pouco ou nada. Fernando e Mário deram um jeitinho para que a revista incomodasse as sensibilidades pacatas logo no seu arranque.

E, de facto, incomodou. Outros colaboradores absorveram espontaneamente as lições dos dois verdadeiros chefes. A poesia do açoriano Armando Côrtes-Rodrigues, publicada em seu próprio nome (1.º número) ou no de Violante de Cysneiros (2.º número), compartilhava temas e até uma certa habilidade fingidora patentes em Pessoa e Sá-Carneiro. Regressado aos Açores, este poeta voltaria a escrever versos dotados de muito sentimento mas pouca originalidade.

O “aluno” mais curioso era C. Pacheco, autor de um poema de grande fôlego, “Para Além Doutro Oceano”, impresso nas provas tipográficas de Orpheu 3. Em virtude de algumas das suas estrofes recordarem ora Álvaro de Campos, ora Alberto Caeiro, ora Fernando Pessoa ele mesmo, pensou-se durante muitas décadas que se tratava de mais um heterónimo. Embora fossem surgindo provas do contrário, a dúvida persistiu até 2011, quando Ana Rita Palmeirim, neta de José Coelho Pacheco, revelou originais do poema na posse da família. Pacheco escreveu outras coisas — em poesia e em prosa —, mas acabou por abandonar a literatura por outra paixão, os automóveis, tornando-se dono de um stand.

Realmente transformado por Orpheu foi Almada Negreiros. Os seus “Frisos”, pequenos contos poéticos, foram quase a sua primeira publicação literária (em Orpheu 1) e ele encarnou o espírito contestatário da revista como nenhum outro colaborador. A virulência e a forma incisiva da sua “A Cena do Ódio”, que integra as provas do n.º 3, têm paralelo no Ultimatum de Álvaro de Campos, mas o texto de Almada é anterior (datando da revolução de Maio de 1915). Almada, mais ainda do que Pessoa, conservaria muito viva a memória de Orpheu, pois correspondeu ao seu momento de afirmação enquanto artista. Não se pode dizer que Orpheu teve a mesma importância para a formação de Fernando Pessoa (e ainda menos de Sá-Carneiro, morto em 1916), porém duas das obras maiores de Pessoa-Campos devem a sua existência à revista. A “Ode Triunfal” fora composta em 1914 (embora não no “Dia Triunfal” nem “num jacto, e à máquina de escrever”, como contaria Pessoa em 1935), mas o “Opiário” foi especialmente escrito para Orpheu 1. Na sequência do succès de scandale obtido por Campos no primeiro número, Pessoa resolveu ir mais longe, escrevendo a chocante e gloriosa “Ode Marítima”, o mais esplendoroso poema em língua portuguesa do século XX. Também não terá sido escrito num jacto, mas quase, pois devia ficar pronto para sair no segundo número, e Pessoa conseguiu esse milagre: mais de 900 versos, perfeitamente organizados e cadenciados. Não repetiu a proeza no caso da “Saudação a Walt Whitman”, prevista para Orpheu 3 mas deixada incompleta, com mais de vinte trechos desconexos. Com a morte de Sá-Carneiro, Pessoa ficou abalado, alguma coisa se partiu, e o grande projecto dos dois amigos já não era o mesmo. Orpheu continuava; Orpheu tinha acabado.