Publicado em

Manuel Tiago

Viveu parte da infância em Seia, terra natal de seu Pai (o escritor e pintor Avelino Cunhal), que foi governador civil da Guarda, antes de se radicar com a família em Lisboa a partir de 1924. Iniciou a sua actividade política ainda no tempo de estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, onde se licenciou em 1940, com excelente classificação final, com uma tese sobre o aborto, e onde chegou a ser eleito em 1934 representante dos estudantes no Senado Universitário. Por isso, desde muito jovem se envolveu abertamente na acção política e revolucionária em luta contra o fascismo salazarista, o que o fez conhecer a prisão por inúmeras vezes ao longo de uma vida em grande parte vivida em clandestinidade ou exilado fora do País.
Ligado desde sempre aos quadros dirigentes do Partido Comunista Português (PCP), foi eleito para o cargo de secretário-geral em 1961, tendo nessa qualidade participado em diversas delegações políticas presentes em congressos ou encontros internacionais. Regressou a Portugal depois da queda do fascismo e, desde Abril de 1974, é considerado como um dirigente político respeitado e de grande reputação pública em todos os quadrantes da vida nacional, que pela sua dimensão carismática se impôs como um dos políticos portugueses mais em evidência nas várias fases do processo de transformação democrática ocorrida nos últimos anos. Assim, nessa qualidade foi ministro sem pasta em diferentes governos provisórios constituídos em 1974 e 1975, eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e à Assembleia da República nas eleições realizadas entre 1976 e 1987, fazendo ainda parte do Conselho de Estado desde 1982.
No entanto, para lá da sua bem conhecida actividade política, destacou-se também como um dos intelectuais portugueses mais intervenientes no movimento literário neo-realista dos anos 40 e 50, onde se destacou como um ideólogo e teórico de formação marxista que tentou alicerçar, dentro de uma evidente estética filosófica, alguns dos valores essenciais proclamados através da poesia, da prosa de ficção e até da pintura como formas de intervenção cultural (e política), em tempos de escalada do fascismo em Portugal. A sua bibliografia tem-se ocupado, sobretudo, das questões políticas e sociais, mas está ainda por recolher parte importante da sua colaboração regular em jornais e revistas, como Sol Nascente, O Diabo, Mundo Literário, Gleba, Seara Nova, etc.
Como desenhador, os seus trabalhos são dos mais significativos para o estudo daquele movimento artístico-literário.
Com o pseudónimo literário Manuel Tiago assinou três romances que, na linha do neo-realismo de inspiração marxista, contam a vivência da clandestinidade política durante a ditadura salazarista, as agruras da fuga das prisões e do exílio e, quando em prisão, a observação dos outros presos, muitos dos quais por crimes que nada tinham a ver com políticas ou ideologias. E contam-no de tal forma que só uma intensa vivência das próprias experiências narradas poderia permitir.
Como escreveu Óscar Lopes, a propósito dos dois primeiros romances deste escritor, «a nível de estrutura narrativa efabulada, é justo salientar, como o mais informativo, o mais exemplar e vivencialmente denso dos romances baseados numa intensa e íntima experiência de organização clandestina, Até Amanhã Camaradas! (1975), subscrito por Manuel Tiago, que também assina uma excelentemente conseguida novela sobre o salto da fronteira por motivos políticos, 5 Dias e 5 Noites (1975)» – esta também objecto e argumento, já nos anos 90, do filme com o mesmo título realizado por José Fonseca e Costa.
Posto que corressem periodicamente suspeitas sobre a verdadeira identidade do autor que se escondia por detrás do pseudónimo Manuel Tiago, só dezanove anos depois da publicação da primeira obra assim assinada, e quando o autor já contava 81 anos de idade, este revelou a sua verdadeira identidade.