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Luís de Sttau Monteiro

Luís de Sttau Monteiro após a publicação das peças satíricas A Guerra Santa e A Estátua (1967), onde teceu duras críticas à ditadura e à guerra colonial. Esta é um excerto da história por trás desta obra é preso pela PIDE.

Nota Explicativa à Primeira Edição

Luís de Sttau MonteiroLuís de Sttau Monteiro

Julgo que é necessário ver as horas. Julgo que é necessário desfazer o mito de Rolando Cid Siegfried Mata-Mouros -mate ele mouros, judeus, cristãos, comunistas ou anticomunistas. A existência de mouros, judeus, cristãos, comunistas ou anti- comunistas não é um crime – o que é um crime é a existência de assassinos profissionais legalizados. O que é um crime é impor a uma época os valores de outra. O que é um crime é fomentar os mitos que justificam os assassinos aos seus próprios olhos e que impedem as vítimas dos assassinos de os ver tal como eles são. A Guerra Santa é o primeiro de dez textos teatrais que tenciono publicar sobre temas do meu tempo. Trata-se dum texto engagé – como eu – à causa do homem e, por tanto, à causa da vida. Quando o li pela primeira vez a meia dúzia de amigos, a quem leio tudo que escrevo para teatro, foi um de opinião que o contraste entre o tom de farsa da primeira parte e o tom didáctico da segunda quebrava a sua unidade, prejudicando-o como fonte de obras de arte que é. Pensei muito nesta objeção por entender que não é possível comunicar eficientemente em teatro quando a comunicação não possa classificar-se de obra de arte, mas acabei por não alterar o texto. A continuação do tom de farsa até ao final impediria o espectador de tirar da farsa inicial as ilações necessárias e permitir-lhe-ia classificar o todo de «paródia sem consequências», colocando-se, assim, na posição fácil e cómoda de observador neutro. Por outro lado, julgo que o texto tem uma unidade estrutural própria que se tornará evidente quando se transformar no espectáculo que tem por objetivo criar. Como, felizmente, vai ser posto em cena no estrangeiro, terei ocasião de verificar se tenho razão ou não. Como é evidente, desde que a não tenha, alterarei o final.

A Estátua é o segundo dos dez textos a que me referi e vai, também, ser posto em cena no estrangeiro. O processo a que nele recorro para que o espectador possa tirar as também necessárias ilações é, evidentemente, um processo experimental que me é difícil criticar ou, sequer, julgar, enquanto o texto se não transformar em espectáculo. Pretendi libertar o actor ser-humano do actor-personagem para o obrigar a julgar-se e a julgar a situação em que se encontra como personagem, não em relação à lógica ou à coerência psicológica do personagem, mas em relação à sua condição de ser humano especificado. Pretendi, em resumo, que o actor se perguntasse a si próprio como é que procederia na situação do personagem. Daqui resulta que é através do actor ser-humano concreto, e não do personagem, que o espectador compreenderá e julgará a situação. Foi-me dito que o processo dificultaria a encenação do texto por ser difícil encontrar um elenco capaz de o interpretar. Repudio energicamente a objecção e admito, até, que o texto venha algum dia a ser interpretado por um ou mais actores que, discordando do seu sentido, se declarem partidários da cidade que deixa de existir para se transformar em estátua. Tanto melhor do ponto de vista da eficiência do espectáculo tanto pior, evidentemente, do ponto de vista humano. A verificação da eventualidade só consegue chamar a atenção do espectador para o conceito de liberdade que se de fende no texto, permitindo-lhe julgar entre duas concepcöes de vida. Também me foi dito que esta «liberdades concedidas ao actor faria com que a peça não pudesse «fixar-se», variaria de terra para terra, de ano para anos de companhia para companhia. Esta impossibilidade de «fixação» -aliás muito relativa não me preocupa. Durante muitos séculos fixação literária», que coincidiu com a sua entrada na I o teatro não teve uma forma fixa» ou sequer «fixável» disso conservou uma tal vitalidade que foi possível assentar construção do que geralmente se designa por teatro medieval em tradições mímicas e verbais. Admito que o espectáculo varie de terra para terra e de ano para ano, mas julgo que isso apenas o tornará mais útil e mais vivo, já que os processos adoptados para transformar as cidades em estátuas também variam de terra para terra e de ano para ano. Depois de ouvir ler A Estátua, o meu amigo Rogério Paulo sugeriu um final diferente que me interessou e julgo minha obrigação apontar-não por amizade para com o Rogério Paulo, já que a nossa amizade não carece de ser estimulada por menções em prefácios – mas por me parecer que a concretização desta sugestão pode exprimir teatral- mente e, portanto, plasticamente, uma ideia que só verbalmente -e, portanto, a-teatralmente-ficou expressa na peça. Refiro-me a uma parte do texto em que se afirma ser inútil à construção da cidade nova tudo o que se aprendeu na cidade velha.

Rogério Paulo
Rogério Paulo

Pensei que a ideia da inutilidade da estátua ficara claramente expressa, no final, quando os habitantes da cidadecorrem para o fundo do palco, dirigindo-se para o futuro ou para a cidade nova, e deixam a estátua abandonada em cena. É possível, porém, que o final sugerido pelo Rogério Paulo seja mais explícito. Os habitantes da cidade, em lugar de se afastarem a correr, desmontam o pedestal da estátua e reconstroem a cidade, tentando utilizar a estátua propriamente dita -o cabide colocado em cima do pedestal-como martelo, vassoura, tubo metálico e tudo o mais que o torne útil à construção da cidade. Depois, porém, de verificarem que a estátua não serve para nada, e que não tem cabimento na cidade nova, deitam-na fora. A sugestão tem, quanto a mim, dois inconvenientes e duas vantagens: arrasta excessivamente o final porque a duração da acção ultrapassa a duração do diálogo e pode dar a entender que, mesmo depois de terem assistido à destruição da cidade, os seus habitantes ainda consideram a estátua susceptível de aplicação, mas, por outro lado, torna-a mais explícita e liquida-a, pelo ridículo, aos olhos dos espectadores. Aqui fica a sugestão do Rogério Paulo, que, de qualquer forma, vou experimentar em cena dentro de pouco tempo. Julgo útil, antes de acabar esta conversa em forma de mono logo com os meus amigos que conhecem os textos de A Guerra Santa e de A Estátua e com os leitores que agora os vão ler, referir um facto curioso que tive ocasião de verificar durante as leituras que fiz e para o qual, aliás, já me tinham chamado a atenção. Sempre que li estes textos a pessoas não relacionadas com o teatro verifiquei que só com muita dificuldade conseguiam ver o espetáculo que os tem por eixo, chegando algumas pessoas a afirmar que os textos eram difíceis de entender. A gente do teatro – a minha gente, portanto ao contrário, entendia-os imediatamente e referia-se, em conversa, não aos textos mas aos espectáculos já montados que acaba de ver. Julgo, efectivamente, que estes textos são difíceis de ler por que não foram destinados a ser lidos. Dia a dia – quase diria hora a hora vou-me afastando cada vez mais da literatura teatral e aproximando dum tipo de teatro que, à falta de melhor designação, classificação de «espectacular». Caminho, assim, para um teatro que não pode ser julgado senão por critérios inerentes à sua própria estrutura e nunca segundo critérios possivelmente úteis à crítica literária, mas inadaptáveis a uma construção que tanto assenta estruturalmente na palavra como na marcação, e na luz como na mímica. Não pretendo, evidentemente, dizer que o meu caminho seja o único caminho. Pretendo apenas segui-lo como até aqui e se dou esta explicação é porque a julgo útil a quem nunca tenha lido textos teatrais meus e comece por estes. Dir-me-ão que, nesse caso, não os deveria editar. De acordo. Não os deveria editar, mas só agora vou ter ocasião de ver os meus textos em cena e, mesmo assim, fora de Portugal. Na minha terra na terra onde eu nasci e que tenho, como é costume dizer-se, na pele – ou edito ou passo a ser um homem de teatro estrangeiro, porque nunca tive ocasião de ver um texto meu representado. Edito, portanto, para não ser estrangeiro e por que, apaixonado que sou pelo teatro, não quero que os meus amigos pensem que desisti.

Luís de Sttau Monteiro